Pra onde vai toda energia do amor depois que ele chega ao fim? O que se faz do espaço vazio daqueles objetos, cheiros e sons cheios de significado, de uma lingua de apenas dois falantes que finalmente morre? Sempre morre? Amar precisa mesmo ser esse sempre quase-morrer e depois de novo: ufa! ainda bem que te encontrei?!
Gostaria que o tempo parasse naquele instante que não se sabe ainda da potência de todas as coisas surgindo. Gostaria de sentir de novo o doce na boca de um amor pungente, mas que ainda me beije timidamente. Mas não. Também não quero. Não quero que eventualmente morra em mim de novo essa língua-de-dois que eu nunca mais vou poder falar. Na qual eu tenha que fingir também que ela não existe mais, até não ser grande coisa. E quando deixar de ser, e eu finalmente poder falar dela sem que se associe a você, assim como tento fazer agora num caderninho surrado, todas as fonéticas dessa língua vão soar completamente outras daquela que eu fingi muito que não existia até ela ir embora. É verdade, o amor se torna outra coisa até não ser mais uma língua. Até ser só alguma coisa que as vezes não tem mais nem nome. Até ser só eu e o caderno.
Eu sei que eu preciso dizer que eu vou viver muitos outros amores, acredito veementemente nisso também, sei que haverão outros idiomas a serem inventados. Sei que eu mereço. Não, não é sobre isso. O problema é que não vejo mais em mim a inocência de tatear uma lingua completamente desconhecida e torná-la minha também.
Talvez você não entenda muito bem o que eu quero dizer, nem mesmo eu entendo enquanto escrevo, mas parece que existe uma faca na minha barriga, bem ali onde estavam as borboletas. Não existe coisa mais clichê do que um escritor dizendo que a palavra é como o cais de uma tremenda tormenta. Mas é isso, sempre foi isso. Gosto dos piegas mesmo, nunca sorrio sem mostrar os dentes. Escrevo pra não me sentir só. Hoje, especificamente, eu não consegui fingir que não sei dessa língua, e coloco aqui porque eu não posso me esquecer de sentir ela partindo. Fingir não senti-la na garganta já me têm sido trabalhoso demais, e só existem duas formas de lidar com a tormenta: ou a afundo e morrem comigo todas as palavras, ou eu tento boiar no mar enquanto balbucio tudo que resta antes que suma. Pensei que talvez registrar as coisas mais tristes (agora que se tornaram tristes) dessa língua me ajudem a respirar melhor.
Você foi a pessoa que eu mais amei até aqui e a angústia de nunca mais amar novamente me abala às vezes. Não tenho me abalado tanto, é verdade. Me abalo e não sai choro. Choro e não me abalo. Tenho dormido cedo, comido bem, não me falta nada. Não procrastino, e por não procrastinar me sobra tempo pra gastar com as palavras entocadas da nossa língua.
E eu não quero que você volte pra que eu te ame. Eu não quero que você mude. Não quero eu mudar também por você. Na verdade, te quero bem longe de mim porque tudo que você fala tem gosto amargo na minha boca. Escrevo isso só porque agora existe apenas a minha lingua e ela é minha régua no mundo. Não há em um pensamento sequer resquícios da ingenuidade que eu te entreguei com as mãos ao te tatear no escuro confiando que a sua superfície mais áspera ainda seria boa. Não poderia não ser boa. Te amei com pressa. Te amei devagar. Te amei doce. Claro, te amei amargo também, até que eu não gostasse mais desse gosto. Algo atrás da nuca parou de me arrepiar. Agora escrevendo, percebo que essa ingenuidade que te entreguei é que sinto falta, e eu julgo injusto não ter mais ela. Ainda acredito em todas as coisas lindas do amor, mas essa ingenuidade foi embora. Acho que eu queria mesmo era sentir o devir de amar com pressa inventando outras línguas por aí, assim como eu também te amei.




